22 Feb 2019

Christian Huyghe, Alguns esclarecimentos sobre os OGM (Organismos Geneticamente Modificados)

Publicado em Cultura
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As interrogações intermináveis sobre a utilidade, os benefícios e a segurança dos OGM são constantemente influenciados pela chuva de informação contra produtiva que se resume à repetição do debate entre os que os defendem e os que a eles se opõem, deixando cidadão comum-produtor ou consumidor-confundido por estes dois argumentos contraditórios. Foi para tentar esclarecer esta questão que fomos ao encontro de um especialista incontestável nesta área, Christian Huyghe, Diretor Científico Adjunto na área da agricultura no INRA (Institut National de la Recherche Agronomique).

Christian-HuygheAgriculture Internationale - Constituirá o desenvolvimento das biotecnologias aplicadas à agricultura e à pecuária ainda a melhor forma de alimentar os 9 bilhões de habitantes que a ONU estima virem a existir em 2050?

Christian Huyghe - A biotecnologia constitui uma inovação tecnológica que permite a exploração de gamas de variação muito mais ampla para a maior parte dos determinantes do valor agrónomo e tecnológico das variedades cultivadas. Não podemos reduzir a biotecnologia à produção e utilização dos OGM. A prática da seleção assistida por marcadores e a seleção genómica são hoje tornadas possíveis graças a um melhor conhecimento dos genomas. Não podemos limitar os desafios colocados por esse cenário previsto para 2050 à simples obrigação de alimentar 9 bilhões de pessoas. É preciso também enfrentá-lo preservando o ambiente, seja em termos de extração de recursos ou de impacto causado nos meios. Reduzir a extração de recursos pressupõe que melhoremos a eficácia da utilização dos recursos naturais (eficiência da água, do azoto, do fósforo) e não somente o volume produzido por unidade de superfície. Também é necessário que possamos fazê-lo em condições socialmente aceitáveis para os produtores e para os consumidores e cidadãos.

É por isso que não podemos reduzir esta questão à simples equação biotecnológica: como alimentar 9 bilhões de habitantes. É preciso procurar uma transição mais global. A biotecnologia, através das OGM e, mais ainda, da seleção genómica, contribuirá para tal. No entanto, as variedades que obteremos deverão ser elaboradas e exploradas em sistemas de produção muito diferentes dos atuais. É então imperativo que reflitamos a respeito de uma profunda modificação dos sistemas de produção segundo um novo paradigma apoiado, por exemplo, em conceitos agro-ecológicos que permitam fazer face ao desafio da sustentabilidade sem procurar somente a maximização de produção por unidade de superfície.

A.I. - Como responde a investigação às interrogações e inquietudes suscitadas pela transgénese aplicada às plantas cultivadas, nomeadamente em resposta pertinente às crescentes necessidades da indústria e das populações?

C.H. - A transgénese é uma técnica. A sua utilização tem que ser dominada e utilizada em condições aceitáveis por todos. A resposta da investigação às ditas interrogações consiste, na área da transgénese, na construção de uma competência que permita esclarecer as decisões públicas sobre as escolhas das consequências biológicas, agrónomas, económicas e ambientais, bem como sobre as condições da sua possível implementação. Consiste igualmente na exploração das potencialidades oferecidas pelos outros meios de melhoria genética das variedades e, nomeadamente, a sua aceleração através da utilização da seleção assistida por marcadores.

A resposta também se encontra na aproximação à escala global do sistema de produção, onde a diversificação tem um papel chave na garantia da sustentabilidade da produção. E este nível, o desenvolvimento da transgénese ou da seleção genómica constitui um desafio, pois as tecnologias tendem a desenvolver-se num número limitado de espécies, o que é contraditório com a necessidade de diversificação e pode gerar fenómenos de bloqueio.

A.I. - A introdução de um gene inseticida ou fungicida numa planta cultivada pode causar a esterilização do solo no qual essa mesma planta cresce?

C.H. - Mais uma vez, não podemos misturar o efeito obtido na planta modificada e o efeito das consequências induzidas no sistema da cultura. A planta em si não causará a esterilização do meio. No entanto, se a introdução de uma variedade geneticamente modificada é feita com a evolução conjunta do sistema de produção, aí podem-se induzir efeitos indiretos. Foi por isso que na Pampa argentina, a introdução da soja OGM, tolerante de um conhecido herbicida sistémico, se fez acompanhar de profundas modificações dos sistemas de produção. Verificou-se uma simplificação das rotações, um reaparecimento muito frequente da soja em cultura principal ou intercalar, tudo essencialmente em sementeira direta visto que a resistência da soja a esse herbicida permite dominar, pelo menos de início, as plantas daninhas. A longo prazo, estes sistemas simplificados são frágeis, de um lado pelo aparecimento de parasitas, do outro pela fertilidade do solo. Mais uma vez vemos reforçada a importância de uma reflexão à escala do sistema de produção.

A.I. - Uma disseminação natural ou provocada das plantas geneticamente modificadas poderia constituir uma grave ameaça à biodiversidade?

C.H. - A disseminação de um transgénico para um meio natural influencia a população selvagem da mesma espécie ou de espécies semelhantes. O mesmo acontece com a implantação de novas variedades, fruto da seleção convencional. É importante distinguirmos entre influência e ameaça. Quando a influência se torna uma ameaça, é quando a disseminação de um transgénico é acompanhada de um agente de seleção que confere a esse transgénico uma considerável vantagem seletiva. Deste modo, se um gene de resistência a um herbicida se espalha pelas populações selvagens ou tradicionais, a diversidade está em perigo no seio destas aquando da aplicação do herbicida seletivo.

A.I. - Verifica-se hoje que algumas pragas de insetos resistem ao gene inseticida introduzido em certas variedades de plantas OGM. É possível impedir este tipo de mutação cientificamente? Se sim, tal é economicamente viável?

C.H. - Não, é difícil evitar a mutação de um inseto-praga quando este é submetido a uma necessidade de seleção. É algo que foi particularmente bem documentado no caso da resistência aos genes Bt. É então necessário tomar medidas que limitem o surgir destes fenómenos de resistência. Alguns mecanismos podem ser aplicados, o que pressupõe que o sejam de forma concertada pela totalidade dos profissionais. A primeira opção consiste na utilização de genes de efeito intenso, não dando a possibilidade ao inseto de reunir os alelos que lhe permitem adaptar-se ao inseticida.

Em seguida, é necessário favorecer a aplicação da resistência conferida por vários genes e não por um só. Tal não difere de quando se trata de resistências obtidas por seleção convencional. Também há que evitar a aplicação simultânea de resistências monogénicas e poligénicas. O contorno das primeiras, que é mais fácil, torna praticamente inoperante a utilização das segundas. Tudo isto requer o compromisso absoluto da parte de todos os profissionais de um país ou de um grupo de países. Finalmente, para desacelerar a evolução genética, recomenda-se manter uma parte da superfície cultivada com variedades mais sensíveis. Isto permite às pragas a sua multiplicação sem a pressão da seleção, o que abranda o aumento da frequência dos genótipos resistentes no seio da praga.

A.I. - As plantas mutagénicas constituem, não estando submetidas à regulamentação dos OGM, uma orientação de investigação capaz de se impor eficazmente? Isto é, oferecendo a mesma segurança e a mesma perspetiva de produção, ganhando a confiança dos utilizadores e consumidores?

C.H. - A mutagénese espontânea é o principal processo que gerou a diversidade existente em todas as espécies, animais ou vegetais, cultivadas ou não. Também está na origem da diversidade da espécie humana... A mutagénese induzida consiste no aumento da frequência do surgir das mutações. A mutação a que se aspira consiste na indução de mutações a altas frequências numa zona particular do genoma, i.e., num dado gene. Porém, a mutação não traz informações genéticas exógenas. Aliás, até é por vezes nociva, tornando alguns genes ineficazes, o que permite o estudo das suas funções. A ausência de informação exógena limita em muito os riscos de produção de substâncias perigosas ou com um certo risco. Por isso, a mutagénese induzida e definida é produto de um longo trabalho de triagem nos laboratórios de investigação. Persiste uma certa inocência que faz com que se creia, por vezes, que algumas mutações podem trazer uma solução absoluta. É também desse modo que os debates são algo estéreis quando se focam na regulamentação, inclusive dos OGM (apenas a regulamentação sobre as variedades e sua inscrição no catálogo nacional ou comunitário é obrigatória para estas variedades) e possíveis OGM ocultas.

ravageursA implementação de uma mutação num quadro genético cria uma situação nova, mais ou menos favorável ao progresso quantitativo. Não esqueçamos que as propriedades que determinam o valor agrónomo e tecnológico dependem de um grande número de genes. E também não esqueçamos que são as condições de implementação e as práticas culturais associadas que determinarão se o mutante inserido na cultura pode representar um risco ou se, pelo contrário, a implementação da variedade contendo a mutação vai determinar a globalidade do resultado esperado. É por isso que o exemplo das variedades tolerantes dos herbicidas é tão interessante. Hoje, na Europa, assistimos à comercialização de tipos de variedades com resistências que não são típicas da espécie em questão. Trata-se sobretudo de resistência às sulfoniluréias, causadas por uma mutação no gene ALS (acetolactato-sintase). A curto prazo, pode ser uma opção apelativa, visto que simplifica a prática da deservagem com produtos pouco dispendiosos. Também pode trazer soluções a floras que se tenham tornado resistentes aos herbicidas previamente utilizados e para as quais não se vislumbra outra solução.

É o caso do cardo, da ambrósia e da datura, no que toca às espécies de primavera. No entanto, a longo prazo, trata-se de uma opção perigosa. Com efeito, as sulfoniluréias são alguns dos herbicidas privilegiados dos cereais, e, em particular, dos cereais de inverno que dominam os sistemas de produção das grandes culturas na Europa. A utilização da mesma molécula na totalidade das rotações e das culturas vai enfraquecer a sua ação como a conhecemos hoje, o que pode tornar-se um problema para todas as espécies cultivadas. Será então a alternância das culturas de primavera e de inverno, um processo de diversificação, que irá abrandar a seleção das plantas daninhas resistentes. Será também a implementação combinada de deservagem química e mecânica que permitirá reduzir a influência da seleção nestas. Por fim, será a alternância da lavoura e das técnicas culturais simplificadas que vai permitir modificar o banco de sementes do solo e sua posição em diferentes cultivos. Devemos refletir, mais que nunca, à escala do sistema, o que implica uma certa complexidade.

Por mais que queiramos soluções simples, quando se trata da produção vegetal ou animal, as opções para uma agricultura eficaz a vários níveis consistem em processos complexos, que exigem uma melhor compreensão dos processos, um diferente acompanhamento dos agricultores, tudo isto para evitar que a complexidade não se torne uma fonte de risco, causando a sua rejeição. Temos igualmente que procurar a conceção de sistemas resistentes e de variância mínima, e não apenas o aumento do valor médio.

 

 

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